História

Como afirmamos na introdução, a percepção indiana tradicional da história é bem diferente daquela desenvolvida no Ocidente. Durante séculos, o hinduísmo pouco se importou com o registro da materialidade, mas sim, com os elementos presentes na narrativa que denotariam as ‘verdades superiores’ da religião. Com isso, os indianos praticaram (por assim dizer) uma história muito semelhante aquela do modelo homérico ou hesíodiano, panorama que só veio a se modificar em dois momentos marcantes: a invasão muçulmana da era mogul e a invasão inglesa. Em ambas, a cultura indiana se defrontou com perspectivas diferentes; e como sempre, as analisou, pesou com cuidado e absorveu o que julgava interessante. Recentemente, porém, pensadores com formação europeurizada, como K. Panikkar, R. Thapar e R. Panikkar (sem parentesco com K. Panikkar) reelaboraram o pensamento indiano em relação a história, adaptando as teorias ocidentais para o entendimento da trajetória dessa civilização. O que veremos nessa seleção é, pois: no Rig Veda (séc. -15?) o famoso canto da criação do universo, o purusha sukta, pedra fundamental para justificar o funcionamento das castas; depois, no Brahmana (séc. -10?), a versão do dilúvio indiano, do qual se salvou Manu, o criador da civilização indiana e autor do manavadharmashastra; uma história do mahabharata (séc. -3?) apresenta-nos o estilo inconfundível na narrativa épica; por outro lado, a jataka budista (séc. -4?) lança a modalidade autobiográfica da vida dos santos, contrapondo-se ao suposto idealismo da narrativa indiana; das leis de Manu (séc. -6?), a explicação da noção de tempo (yugas) no hinduísmo tradicional, e das eras da humanidade; o conto do panchatantra (séc. +3?) ilustra o aspecto moralista da história, mesmo que esta seja uma parábola; no entanto, o texto do Rajatarangni, feito na Kashemira em torno do séc. +12, se propõe uma cronologia mais atenta ao desenrolar dos acontecimentos, situando-os, inclusive, no espaço-tempo; logo depois, a crônica do governante muçulmano (moguls) da Índia, Akbar (1542-1605) apresenta aos indianos um modo diferente de fazer história, vindo da cultura persa, e extremamente preocupado com as datas e a descrição dos acontecimentos; contudo, a influência dessa visão seria limitada, e teria que aguardar a vinda das teorias européias para a construção de uma nova história indiana. Kavalam Panikkar (1895-1963) foi um dos primeiros indianos a reconstruir a história da Ásia numa visão pós-colonial, usando uma criticidade criativa e inovadora; Raimon Panikkar (1918-2010) filosofo e intelectual hindu-espanhol aprofundiza a análise da história tradicional indiana, traduzindo-a ao entendimento ocidental; por fim, um trecho da atual versão da história revisionista indiana, nacionalista e indocentrista, que busca resgatar o passado indiano dentro de uma perspectiva legitimadora do hinduísmo; e a crítica de Romila Thapar, historiadora indiana ativa e contestadora, que defende uma história indiana autêntica mas livre das pressões do revisionismo nacionalista.
No mais, insisto: as datações dos documentos antigos são vagas e imprecisas. Peço ao leitor que compreenda que o pensamento indiano tradicional dispensa esses marcos históricos, atendo-se ao sentido do documento, o que lhe proporciona esse caráter ahistórico- e porém, amplamente durável – que marca grande parte da literatura indiana.


1. Origens, de acordo com o Rig Veda

Mil cabeças tem Purusha, mil olhos, mil pés.
Por toda parte impregnando a terra ele enche um espaço com
dez dedos de largura.
Esse Purusha é tudo que até agora já foi e tudo que será,
o senhor da imortalidade que se torna maior ainda pelo alimento.
Tão poderosa é sua grandeza! Sim, maior do que isto é Purusha.
Todas as criaturas são uma quarta parte dele, três quartas partes são a vida eterna no céu.
Com três quartos Purusha subiu; um quarto dele novamente estava aqui.
Daí saiu para todos os lados por sobre o que come e o que não come.
Dele nasceu Viraj (a); e novamente de Viraj nasceu Purusha.
Assim que nasceu, espalhou-se para oriente e ocidente sobre a terra.
Quando os deuses prepararam o Sacrifício com Purusha como
sua oferenda,
Seu óleo foi a primavera; a dádiva santa foi o outono; o verão
foi a madeira.
Eles embalsamaram como vitima sobre a grama o Purusha nascido no tempo mais antigo.
Com ele as deidades e todos os Sadhyas e Rishis (b) fizeram sacrifício.
Desse grande Sacrifício geral a gordura que gotejava foi colhida.
Ele formou as criaturas do ar, os animais selvagens e domesticados.
Daquele grande Sacrifício geral Rics (c) e hinos-Sama (d) nasceram;
Daí foram produzidos encantamentos e sortilégios; os Yajus (e)
surgiram disso.
Dele nasceram os cavalos e todo o gado com duas fileiras de dentes;
Dele se reuniu o gado bovino, dele nasceram cabras e ovelhas.
Quando dividiram Purusha, quantos pedaços fizeram?
A que chamam sua boca, seus braços? A que chamam suas coxas e pés?
O Brâmane (f) foi sua boca, de ambos os seus braços foi feito o
Rajanya (xátria). Suas coxas tornaram-se o vaixá, de seus pés o sudra foi produzido.
A Lua foi engendrada de sua mente, e de seu olho o Sol nasceu;
Indra e Agni nasceram de sua boca, e Vayu de seu alento.
De seu umbigo veio a atmosfera; o céu foi modelado de sua cabeça;
A terra de seus pés, e de suas orelhas as regiões. Assim eles
formaram os mundos.
Sete bastões de luta tinha ele, três vezes sete camadas de combustível foram preparadas,
Quando os deuses, oferecendo o sacrifício, manietaram sua vítima, Purusha.
Os deuses, sacrificando, sacrificaram a vítima; estes foram os
primeiros sacramentos.
Os poderosos chegaram às alturas do céu, lá onde os Sadhjas,
deuses antigos, estão morando.

a) Contrapartida feminina do principio masculino, Purusha.
b) santos e profetas de tempos antigos.
c) Estrofes do Rig-veda.
d) Estrofe do sama-veda.
e) Fórmulas rituais do Yajur-veda.
f) As quatro classes sociais.


2. História mítica (episódio do dilúvio), do Sataphata Brahmana

Pela manhã trouxeram a Manu água para se lavar, assim como hoje trazem água para lavar as mãos. Quando se lavava, um peixe veio ter as suas mãos.
O peixe lhe disse: "Ajuda-me, eu te salvarei!" Do que me salvaras?' "Uma enchente varrerá todas estas criaturas - disso te salvarei!" "Como te devo ajudar?”
O peixe lhe disse: "Enquanto somos pequenos, há grande destruição para nós e um peixe devora o outro. Tu me manterás primeiro em uma jarra. Quando eu crescer, tu cavarás um poço e me manterás nele. Quando eu crescer mais, tu me levarás ao mar, pois estarei então além da destruição".
O peixe logo se tornou grande, com o que disse: "Em tal e qual ano a enchente virá. Tu ouvirás então o meu conselho, preparando um navio; e quando a enchente chegar tu entrarás no navio e eu te salvarei dela".
Depois de criado desse modo, ele o levou para o mar. E no mesmo ano que o peixe dissera ele ouviu seu conselho, preparando um navio; e quando a enchente chegou, ele entrou no navio. O peixe então nadou para ele e a seu chifre ele atou a corda do navio, passando assim rapidamente para outra montanha no norte. Ele disse então: "Eu te salvei. Amarra o navio à uma árvore, mas não deixa a água te levar, enquanto estiveres na montanha. A medida que a água baixar, tu poderás descer gradualmente!" Assim fazendo, ele desceu gradualmente e por isso aquela encosta da montanha ao norte se chama "a descida de Manu". A enchente então varreu todas estas criaturas e somente Manu ficou aqui.


3. História épica no Mahabharata

Havia outrora um rei chamado Asvapati, que tinha uma filha tão formosa e meiga que lhe deram o nome de Savitri, o de uma sagrada oração dos hindus.
Quando a moça chegou à idade núbil, seu pai mandou que escolhesse marido, de acordo com sua vontade, pois na antiga Índia não se conhecia nem por sombra o que hoje se chama razão de Estado nas monarquias, sendo as princesas reais donas absolutas dos seus sentimentos amorosos.
Savitri aceitou o conselho de seu pai. A carruagem real, acompanhada de brilhante escolta e antigos potentados que dela cuidaram, visitou varias cortes vizinhas e outros reinos distantes, sem que nenhum príncipe conseguisse sensibilizar seu coração.
Aconteceu que a comitiva passou por uma ermida localizada em um daqueles bosques da índia antiga, em que a caça era proibida, de sorte que os animais que ali habitavam haviam perdido todo temor ao homem e até os peixes dos lagos apanhavam com a boca as migalhas de pão que se lhes davam com as mãos.
Havia milhares de anos que não se matava nenhum ser naquele bosque; os sábios e os anciãos desgostados do mundo retiravam-se para lá a fim de viverem em companhia dos cervos, das aves, entregando-se à meditação e a exercícios espirituais pelo resto da vida.
Sucedeu que uni rei, chamado Dyumatsena, já velho e cego, vencido e destronado por seus inimigos, refugiou-se no bosque fechado com sua esposa, a rainha, os seus filhos dos quais o mais velho se chamava Satvavân, e ali passava asceticamente a vida, em rigorosa penitência.
Na antiga índia, era costume que todo rei ou príncipe, por mais poderoso que fosse, ao passar pela ermida de um varão sábio e santo, retirado do mundo, se detivesse para tributar-lhe homenagem; tal era o respeito e a veneração que os reis prestavam aos yogis e aos rishis.
O mais poderoso monarca da índia sentia-se honrado quando podia demonstrar sua descendência de algum yogi ou rishi que tivesse vivido no bosque, alimentando-se de frutas, raízes e coberto de andrajos.
Assim é que quando se aproximavam a cavalo de alguma ermida, apeavam-se muito antes de chegar a ela e andavam a pé até o local onde estava o eremita. Se iam de carro e armados, também desciam, despojavam-se de seus arreios militares e depois entravam na ermida, pois era costume que ninguém entrasse naqueles sagrados retiros ou ashram, como eram chamados, com armamentos militares, mas sim com atitude serena, pacifica, humilde.
Fiel ao costume, Savitri penetrou na ermida do bosque sagrado e, ao ver Satyavân, filho do destronado rei eremita, ficou profundamente apaixonada por ele. Ela já havia desprezado os príncipes de todas as cortes e unicamente o filho do destronado Dytimatsena lhe havia roubado o coração.
Quando a comitiva regressou à corte, o rei Asvapati perguntou à filha:
- Diz-me, Savitri, querida filha, vistes alguém digno de ser teu esposo?
- Sim, pai querido, – respondeu Savitri ruborizada.
- Qual o nome do príncipe?
– Já não é príncipe, meu pai, por que é filho do rei Dyumatsena, que perdeu o reino. Não tem patrimônio e vive como um sannyasi no bosque, colhendo ervas e raízes para alimentar-se e manter seus velhos pais, corri quem mora em uma cabana.
Ao ouvir isto dos lábios de sua filha, o rei Asvapati consultou o sábio Narada, que se achava presente. Este declarou que aquela escolha era o mais funesto presságio que a princesa havia feito.
O rei pediu então a Nârada que explicasse os motivos de sua declaração e ele respondeu:
- Daqui a um ano esse jovem morrerá.
Aterrorizado por esse vatícinio, disse o pai à filha:
- Pensa, Savitri, quê o jovem que escolheste morrerá dentro de um ano e ficarás viúva. Desiste da escolha, filha minha, e não te cases com um jovem de tão curta Vida.
Savitri, porém, respondeu:
-Não importa, meu pai. Não me peças que me case com outro e sacrifique a castidade de minha mente, porque em meu pensamento e em meu coração amo ao valente e virtuoso Satyavân e o escolhi para esposo. Uma donzela escolhe uma só vez e jamais quebra sua fidelidade.


4. História Budista, do Mohijima nikaya

Eu também, monges, antes do meu total despertar, quando era ainda bodhisatta, não totalmente desperto, e pelo fato de que estava sujeito ao nascimento, devido ao eu, buscava o que estava igualmente sujeito ao nascimento, etc. Veio-me esta idéia: Por que, sujeito ao nascimento devido ao eu, busco o que é igualmente sujeito ao nascimento?.. etc. Se [sendo] sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao nascimento, buscasse o não nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana; E se, sujeito à velhice, à morte, à dor, à impureza devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito a estes estados, eu buscasse o que é sem velhice, sem morte, sem dor, sem mácula, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana?
Então abandonei meu lar para viver sem lar, em busca do que é bom, buscando a incomparável vereda da paz. Eu me dirigi primeiro para junto de Alãra Kãlãma, depois para Uddaka Rãmaputta; mas do dhamma e da disciplina destes dois [mestres] compreendi o seguinte: este dhamma não conduz à indiferença, à impassibilidade, à cessação, à tranqüilidade, ao conhecimento superior, ao despertar, ao nirvana, mas somente com Alãra, até o plano de aniquilamento do eu; com Uddaka, até o plano de nem percepção nem não percepção. Então, buscando o que é bom, buscando a incomparável vereda da paz, e percorrendo a pé o Magadha, terminei por chegar a Uruvelã, a Povoação do Campo. Ali eu vi uma deliciosa extensão de terreno plano, um bosque encantador, um rio que corria com águas bem claras; não muito longe havia uma aldeia onde era possível viver. Pensei: a um jovem que está resolvido a fazer esforços, que mais necessitaria para seus esforços? Sentei-me, pois, ali, achando o local conveniente para meus esforços. Então, ó monges, sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito ao nascimento, e procurando o não-nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana, encontrei meu caminho até o não nascido, até a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana... procurando o que não envelhece... o que não morre... o que é sem dor... encontrei meu caminho até o que não conhece nem velhice, nem morte, nem dor. Então sujeito à impureza devido ao eu, tenho percebido o perigo no que está igualmente sujeito à impureza, buscando o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana, consegui o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o nirvana. Conhecimento e visão surgiram em mim: inabalável é minha liberdade, este meu último nascimento, não mais existe novo porvir.


5. As Yugas (Eras) hinduístas, no Manavadharmashastra

Mas ouçam agora a breve descrição da duração de uma noite e um dia de Brahman e das diversas idades do mundo, de acordo com sua ordem.
Eles declaram que a idade de Krita consiste em quatro mil anos dos deuses; o crepúsculo antes dela consiste em outras tantas centenas, e o crepúsculo seguinte no mesmo número. Nas outras três idades, com seus crepúsculos antecedendo e seguindo, os milhares e centenas são diminuídos de um em cada. Esses doze mil anos que foram assim mencionados como o total de quatro idades humanas são chamados uma idade dos deuses. Mas saibam que a soma de mil idades dos deuses forma um dia de Brahman, e que sua noite tem a mesma duração.
Somente aqueles, que sabem que o dia santo de Brahman na verdade termina depois de completarem-se mil idades dos deuses e que sua noite dura outro tanto, são os homens conhecedores da duração dos dias e noites.
Ao final daquele dia e noite, aquele que dormia desperta e, depois disso, cria a mente, que é tanto real quanto irreal. A mente, impelida pelo desejo de Brahman de criar, executa o trabalho da criação modificando-se, com o que o éter é produzido; eles declaram que o som é a qualidade deste último.
Mas do éter, modificando a si próprio, surge o vento puro e poderoso, veículo de todos os perfumes; a esse é atribuída a qualidade do tato.
Em seguida ao vento, que se modifica sozinho, sai a luz brilhante, que ilumina e desfaz a treva; a ela se atribui a qualidade da cor;
E da luz, modificando-se, produz a água, que tem a qualidade do paladar, e da água a terra que tem a qualidade do olfato; tal é a criação no início.
A idade mencionada antes, a dos deuses, ou doze mil de seus anos, multiplicada por setenta e um, constitui o que aqui se chama o Período de um Manu. Os Períodos de um Manu, criações e destruições do mundo, são inúmeros; divertindo-se, por assim dizer, Brama repete isso infinitamente.
Na idade de Krita, Dharma tem quatro pés e é inteiro, e assim também é a Verdade; nem tampouco advém qualquer benefício aos homens por andarem eretos. Nas três outras idades, devido a ganhos injustos, Dharma é sucessivamente privado de um pé, e pela existência de roubo, falsidade e fraude o mérito ganho pelos homens é diminuído numa quarta parte em cada um.
Os homens acham-se livres de doença, atingem todos os seus objetivos e vivem quatrocentos anos na idade de Krita, mas na idade de Treta e em cada qual das subseqüentes sua vida é encurtada de uma quarta parte.
A vida dos mortais, mencionada nos Vedas, os resultados desejados dos ritos sacrificais e o poder sobrenatural dos espíritos incorporados são frutos proporcionados entre os homens, de acordo com o caráter da idade.
Um conjunto de deveres é prescrito aos homens na idade de Krita, deveres diferentes na idade de Treta e na de Dvapara, e outra vez novo conjunto na idade de Kali, em proporção na qual tais idades diminuem em duração.
Na idade de Krita a virtude principal é afirmada como sendo a execução de austeridades, na de Treta o conhecimento divino, na de Dvapara a realização de sacrifícios, na de Kali somente a liberalidade.


6. História moralista, do Panchatantra

Havia uma vez um Brâmane chamado “Crente”, numa certa cidade. Sua mulher criava um único filho e um mangusto. E como gostava dos pequeninos, cuidava também do mangusto como de um filho, dando-lhe leite do seu seio, remédios e banhos, e assim por diante. Mas não tinha confiança nele, porque pensava - o mangusto é uma criatura ruim. Poderia fazer mal a meu filho.
Um dia ela aconchegou o filho na cama, apanhou uma bilha d’água e disse ao marido: - Olha, professor, eu vou buscar água. Você precisa proteger o menino contra o mangusto. Mas depois dela ter saído, o Brâmane também saiu para mendigar comida, deixando a casa vazia.
Enquanto este estava fora, uma cobra preta saiu de seu buraco, e de acordo com o destino, esgueirou-se para o berço do bebê
Mas o Mangusto, sentindo nela um inimigo natural, e temendo pela vida de seu irmãozinho, caiu sobre a malvada serpente, lutou com ela, fê-la em pedaços, e atirou-os longe. Então, encantado com seu heroísmo, correu, com o sangue ainda a escorrer-lhe da boca, ao encontro da mãe, porque queria mostrar o que fizera.
Mas, quando a mãe o viu chegando, viu sua boca ensangüentada em seu nervosismo, pensou que o miserável tivesse comido seu filhinho, e sem refletir, raivosamente atirou a bilha d’água em cima dele, matando-o instantaneamente. Lá o abandonou sem mais delongas, e apressou-se em voltar para casa, onde encontrou bebê são e salvo, e junto ao berço uma enorme cobra preta em pedaços. Então, abismada de dor, porque matara irrefletidamente o seu benfeitor, seu filho, pôs-se a bater na cabeça e no peito
Nesse momento chegou o Brâmane com uma travessa de caldo de arroz, que conseguira de alguém nas suas voltas de pedinte, e viu a mulher amargamente lamentando o filho, o pobre mangusto: - Ambicioso! Ambicioso! Gritou ela. Porque você não fez o que eu lhe disse, tem agora que sofrer a amargura da morte de um filho, o fruto da árvore da sua maldade. Sim, isto é o que acontece aos que se deixam cegar pela voracidade.


7. Crônica histórica, do Rajatarangini

Nessa época, os budistas preponderavam no país e gozavam da proteção do sábio bodisatva nagarjuna. Como haviam derrotado as controvérsias com todas as pessoas sabias e ilustres que os cercavam, esses adeptos da heresia e inimigos da tradição haviam proibido os ritos prescritos no Nila purana (purana de serpente Nila, fundadora mítica da kashemira). Os costumes do país mudaram, e os naga (divindades protetoras da kashemira), ao ver que não haviam mais oferendas, fizeram cair muita neve, causando a perda de inúmeras vidas. A neve continuou a cair ano após ano, para desespero dos budistas, de modo que ate mesmo o rei, na estação fria, buscou abrigo em darvabisara e em outras localidades mais quentes. Havia um pode miraculoso que só os brâmanes praticantes dos ritos e das oferendas conheciam que os impedia de morrer, enquanto os budistas corriam para sua ruína total. Foi quando chegou um brâmane chamado chandradeva, nascido de Kasyapam que praticou austeridades em honra a Nila, amo dos nag e protetor do país. Nila se manifestou ele, afastou do país os desastres e a neve e com isso se voltou a praticar os ritos prescritos no Nila purana.


8. Akbarnama – história islâmica na Índia

Às 9 horas e 21 minutos da noite de domingo, 8º de shaban, ano lunar de 972 e 11 de março de 1565, como sol entrando na casa do grande triunfo e exaltação, começou o 10º ano de reinado de sua Divina majestade Shāhinshāh.
[...]
Entre os principais eventos do ano foi a fundação do Forte de Agra. Não é desconhecido das mentes da matemática e aquelas familiarizadas com o mecanismo das esferas que desde que o criador do mundo adornou o tempo e o espaço com a existência do Shāhinshāh a fim de que a série de criações pudessem ser aperfeiçoadas, e que os sábios de coração pudessem, cada, um , cumprir seus papéis na mundo. De uma só vez ele preparou os funcionários do governo, aperfeiçoando a terra para a natureza animada para melhorar a agricultura de irrigação e da semeadura das sementes. Em outro momento ele estabeleceu o domínio espiritual e temporal através da construção de fortalezas para a proteção da produção e na guarda de honra e prestígio. Foi assim que ele, neste momento, deu indicações para o edifício em Agra, que pela posição é o centro de Hindustão, e sendo uma grande fortaleza, como poderia ser digno dele, corresponde à dignidade de seus domínios. Uma ordem foi emitida para que o velho forte que fora construído na margem leste do Jamna, e cujos pilares foram abalados pelas revoluções do tempo e os choques da fortuna, fosse removido, e que uma fortaleza inexpugnável deveria ser construída de pedras lavradas.Era para ser estável como o fundamento do domínio da família sublime e permanente como os pilares de sua fortuna. Assim, nobres de espírito, matemáticos e arquitetos capazes lançaram os alicerces deste grande edifício em um momento que foi supremo para o estabelecimento de uma fortaleza desse tipo. As escavações foram feitas através de sete camadas da terra. A largura da parede tinha três jardas Badshahi e sua altura era de sessenta metros. Foi equipado com quatro portas, tal qual as portas de seus domínios foram abertas para os quatro cantos do mundo. Todos os dias 3 a 4 mil construtores ativos e soldados fortemente armados realizavam o trabalho. Das fundações para as ameias, a fortaleza foi composta de pedras lavradas, cada um das quais foi polida como um espelho do revelador do mundo, refletindo o rosto da fortuna. E eles eram tão unidas que um fio de cabelo não poderia encontrar lugar entre eles. Esta fortaleza sublime, como a de que nunca tinha sido visto por um geômetra fabuloso, foi concluída com suas ameias, parapeito, e suas seteiras no espaço de oito anos sob a superintendência fiel de Qasim Khān Mir Barr u Bahr.


9. História pós-colonialista de K. M. Panikkar

As novas instituições democráticas da Ásia podem portanto não durar mais que algumas gerações, ou tornarem-se rapidamente réplicas das instituições liberianas, nem por isso é menos verdade que os princípios de governo vindos do ocidente modificam totalmente a Ásia e que sua influencia ainda se fará sentir por muito tempo. É que as novas estruturas sociais se refletem necessariamente em novas instituições políticas; e, mais precisamente, a participação no comercio mundial, a industrialização e seus corolários, a acumulação de riquezas e a organização do trabalho, o desenvolvimento de uma vida urbana diferente do que se desenvolvia nas grandes capitais do passado, todos esses fatores, apenas para citar esses, tornam inconcebível um retorno as antigas estruturas políticas, que se baseavam numa economia rural e nos rendimentos da terra. É evidente que a estrutura política dos países asiáticos que hoje imitam servilmente as instituições ocidentais evoluirá com o tempo e se afastara das tradições européias. Mas qualquer retorno a uma tradição puramente asiática é vedado pelo advento de novas forças sociais, econômicas e políticas, que até aqui nenhum país asiático conhecera.


10. Crítica da História Tradicional, de Raimon Panikkar

A visão que um povo tem da história revela a maneira como compreende seu próprio passado e o assimila no presente. Mas não é tanto a interpretação escrita quanto o modo de viver e reviver o passado que testemunha a atitude do povo em face da história. Ora, a índia viveu seu passado muito mais por seus mitos do que pela interpretação de sua historia, enquanto lembrança dos acontecimentos passados. Não que esta ultima esteja ausente- em certas regiões tem-se mesmo uma consciência aguda nesse sentido – mas faltam critérios de diferenciação entre mito e história, fato desconcertante para o espírito ocidental, que não vê que seu mito próprio é, precisamente, a história. [...] trata-se, portanto, do mito como homologo da historia. As expressões consagradas para “história mítica” ou “mito histórico” – ambas inseparáveis – são por um lado: itahasas (foi assim) , que designa a literatura épica, e por outro lado: purana (narrativa antiga), que designa a literatura mais propriamente mítica, onde se misturam evidentemente elementos históricos. A relação entre mito e história não deve ser concebida como uma relação entre lenda e verdade, mas como duas maneiras de ver o mesmo horizonte da realidade, que é interpretado como mito por quem está de fora e como historia por quem está dentro. Aquilo que, no ocidente, preenche a função da história é o que na índia o ocidental chamaria de mito. Em outras palavras, aquilo que o ocidental chama, no ocidente, de história, é vivido pelos hindus como mito. E também vice-versa: aquilo que na índia possui o grau de realidade na história é o que no ocidente o hindu chamaria de mito. Em outras palavras, o que o hindu chamaria na índia, de historia, é vivido pelos ocidentais como mito. Do ponto de vista ocidental não é a história que tem importância no ponto de vista dos hindus, mas é precisamente mito tudo o que tem alguma importância na consciência histórica do povo. Os personagens e acontecimentos que marcam profundamente e inspiram a vida dos hindus (em termos ocidentais,que tem peso histórico) formam necessariamente mitos, pois todo acontecimento que possui uma consistência, digamos, existencial, entra no mito. O grau de realidade do ‘mito’ é maior que o da ‘história’. Poderíamos ilustrar essa afirmação, reportando-nos a reação popular ao momento do nascimento de Bangladesh. O processo de criação dos mitos não terminou: M. Eliade mostrou de modo suficiente que o ‘homem arcaico’ se interessa mais pelos arquétipos do que pela unicidade da situação histórica. Se estamos prontos a aceitar que esta ‘ consciência mítica’ corresponde à consciência histórica ocidental, ao menos em sua função de preservar e integrar o passado, é preciso afirmar que a índia não refletiu muito sobre a ‘historia’, mas assimilou de um modo orgânico no ‘mito’.


11. História nacionalista indiana – Siddhartha Jaiswal

O que eu não sabia era que a Teoria da Invasão Ariana (AIT), que sempre foi contestada por proeminentes estudiosos indianos, foi caindo em descrédito entre os historiadores atuais também. Eu aprendi muito mais tarde que AIT foi desenvolvida pelos historiadores eurocêntricos, e que mantinham certas tendências a respeito da cultura indiana. Hoje, no entanto, AIT não é mais aceita como fato. Mas porque é que o debate sobre a questão AIT tem pressionando a Índia moderna? A resposta é que AIT tem várias implicações sérias para os indianos, especialmente em nossa sociedade contemporânea. Primeiro, a crença em uma origem estrangeira da cultura indiana tem marginalizado a importância da história da Índia, para muitos, como eu. Também tem levado muitos hindus educados a desenvolver sentimentos de vergonha e uma atitude eurocêntrica em direção a sua própria cultura. Segundo, AIT tem um impacto decididamente negativo sobre as ideologias indianas contemporâneas políticas e sociais. Ela criou divisões entre Norte e Sul indianos, diferentes grupos étnicos, e entre as castas. Finalmente, AIT precisa ser descartado pelas exigências da verdade histórica. A psique indiana e o sistema social tem sofrido muito por causa AIT, e alguma medida de justiça deve ser exigida antes que estas feridas possam curar. Pela AIT estar em descrédito, os indianos podem recuperar o orgulho da sua história antiga e gloriosa, e usá-lo como uma base para construir um índia mais unida, mais forte.
[...]
Para que fins foi utilizado a AIT pelos colonizadores na Índia? Ela serviu principalmente como uma ferramenta para a justificação da presença britânica na Índia. Os britânicos argumentaram que eles estavam fazendo apenas o que tinha sido feito séculos antes pelos arianos. Com efeito, ela criou um meio para aos britânico para racionalizar sua exploração brutal e dominação da Índia. Ele também parecia diminuir a gravidade das invasões igualmente brutais dos muçulmanos na Índia antes da chegada britânico. [...]


12. Crítica moderna a história revisionista indiana, de Romila Thapar

Você tem se oposto fortemente à tentativa de se usar a história como apoio à ideologia de nacionalismo religioso promovida pelo partido hindu de direita Bharatiya Janata (BJP), que esteve no poder de 1998 a 2004. Houve uma tentativa, ao mesmo tempo, de reescrever os livros didáticos indianos. Como a reescrita da história em apoio à ideologia política recente afeta os direitos humanos?

Deixe-me esclarecer aqui que minha luta foi contra o governo liderado pelo BJP e contra a visão Hindutva (de “hinduidade”) da história indiana e não contra outros governos da Índia. O lobby Hindutva que insistia em mudanças nos livros didáticos indianos defende um ultranacionalismo hindu de direita (freqüentemente descrito como fundamentalismo hindu) e está tentando propagar uma história revisionista nas salas de aula e no discurso político. A organização-mãe na Índia, conhecida como Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), tem uma agenda política distintamente marcada pelo fundamentalismo religioso. A RSS e seu braço político, o partido Bharatiya Janata (BJP), ganharam poder ao derrotarem os indianos secularistas moderados por meio da exploração dos sentimentos nacionalistas hindus. A RSS tem estado envolvida em vários graves incidentes de violência motivados por motivos religiosos durante os últimos 20 anos.
A controvérsia sobre o meu trabalho envolveu alguns livros didáticos que escrevi para escolas das últimas séries do ensino fundamental nos quais eu falava sobre as vidas dos arianos conforme as conhecemos nos textos védicos. Mencionei, por exemplo, que os indianos antigos comiam carne bovina: as referências nos textos védicos são claras e há evidência arqueológica disso. A direita hindu enalteceu os arianos como o grande modelo de sociedade da Índia antiga e se opôs a qualquer crítica a eles. Quando eles se opuseram a isso e a outras de minhas afirmações, apresentei evidências tiradas dos textos como prova. Mas eles insistiram que as crianças não deviam aprender que se comia carne bovina nos tempos antigos. Minha reação foi dizer que é historicamente mais correto explicar às crianças porque se comia carne bovina antes e porque, mais tarde, se introduziu a proibição.
Embora o ataque a mim tenha sido cruel, não fui a única historiadora atacada. Éramos seis os que haviam escrito os livros didáticos anteriores e houve também outros que falaram contra as mudanças no currículo escolar e nos livros didáticos pelo governo da época. Essas mudanças foram feitas sem consulta aos órgãos educacionais que normalmente deveriam ter sido consultados. O governo então nos caracterizou como anti-hindus, consequentemente anti-indianos, antipatrióticos e, portanto, traidores.
A exclusão de algumas passagens em nossos livros e a proibição de qualquer discussão sobre as passagens excluídas levantaram uma série de questões de todos os tipos quanto aos direitos dos indivíduos e à ética das instituições governamentais.
[...]
A memória é uma coisa especialmente pessoal. Se levantada por um grupo, é reformulada como memória coletiva. Memórias coletivas, portanto, não são espontâneas. A memória de uma pessoa pode incitar a memória de outros e também criar um eco em outros. A reunião de todas as memórias, porém, é um ato deliberado.
A história, por definição, não é pessoal. Ela tem regras formais pelas quais se chega a uma conclusão particular. Ela é o produto final de um claro processo que envolve vários estágios, onde os dados são textuais e se utilizam registros escritos. O processo é muito, muito claro. Ele se torna um pouco mais ambíguo na arqueologia, por exemplo, quando se lida com artefatos que precisam ser interpretados por um arqueólogo. Eles dizem pouco em si mesmos e o arqueólogo precisa tentar representar o que o objeto significa. Na realidade, isso também se aplica aos dados textuais, porque o historiador precisa interpretar o texto e obter mais dados a partir dele.
A separação mais difícil entre memória e história acontece na história oral, onde os dados se limitam à memória e o processamento se torna muito mais difícil.
O papel da memória é muito importante para que se relembre a parte dela que diz respeito aos direitos humanos. A ênfase é sobre o fato de que há certos direitos que são fundamentais e que precisam ser reiterados para cada geração. A memória que acompanha eventos passados relacionados a esses direitos é muito importante. Mas a memória também pode ser maltratada, como quando se fala em corrigir erros do passado. Esse é um apelo a um tipo de memória muito diferente da que diz respeito aos direitos humanos e que traz resultados igualmente diversos.

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